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segunda-feira, 1 de junho de 2009

Dia de Pentecostes

Poesia de Herberto Hélder para celebrar Pentecostes, o dia em que todos os homens se entendem.


Penso que deve existir para cada um
uma só palavra que a inspiração dos povos deixasse
virgem de sentido e que,
vinda de um ponto fogoso da treva, batesse
como um raio
nos telhados de uma vida
, e o céu
com águas e astros
caísse sobre esse rosto dormente, essa fechada
exaltação.

Que palavra seria, ignoro. O nome talvez

de um instrumento antigo, um nome ligado
à morte – veneno, punhal, rio
bárbaro onde
os afogados aparecem cegamente abraçados a enormes
luas impassíveis.

Um abstracto nome de mulher ou pássaro.
Quem sabe? – Espelho, Cotovia, ou a desconhecida
palavra Amor.


Somente sei que minha vida estremeceria, que

os braços sonâmbulos

iriam para o alto e queimariam a ligeira

noite de Junho, ou que o meu

coração ficaria profundamente louco. E nessa

loucura

cada coisa tomaria seu próprio nome e espírito,

e cada nome seria iluminado

por todos os outros nomes da terra, e tudo

arderia num só fogo, entre o espaço violento

do mês de primavera e a terra

baixa e magnífica.




Herberto Helder
A Colher na Boca



quinta-feira, 28 de maio de 2009

A Salvação de Wang-Fô












“Sem deixar de pintar, Wang-Fô disse-lhe docemente:

- Julgava-te morto.

- Estando você vivo, disse Ling cheio de respeito, como é que eu poderia ter morrido?

E ajudou o mestre a subir para o barco. O tecto de jade reflectia-se na água, de maneira que Ling parecia navegar no interior duma gruta.

As tranças dos cortesãos submersos ondulavam à superfície como cobras, e a cabeça do Imperador flutuava como um lótus.

- Repara, meu discípulo, disse Wang-Fô melancolicamente. Estes infelizes vão morrer, se é que não morreram já. Nunca supus que no mar houvesse tanta água que pudesse afogar um imperador. Poderemos fazer ainda alguma coisa?

- Não te preocupes, Mestre, murmurou o discípulo. Não tarda que eles estejam de novo em seco, sem mesmo se lembrarem de terem molhado as mangas. Só o Imperador é que há-de guardar no coração um pouco do amargor do mar. Gente como esta não foi feita para se perder dentro dum quadro.

E acrescentou:

- O mar é belo, o vento favorável, as aves marinhas andam a fazer os ninhos. Vamos embora, Mestre, para o lado de lá das ondas.

- Vamos, disse o velho pintor.”



Bonita, esta trama que se estabelece entre a pintura e a vida, entre a obra e a vida.

Marguerite Yourcenar: como um céu estrelado numa noite de luar.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Livros que nos salvam



Cada mês uma de nós ganha rodas e visita aldeias destas terras. Desta vez fui eu a contemplada. Também nós temos o privilégio de contar com uma das carrinhas doadas em tempos pela Fundação Calouste Gulbenkian. Quem viveu sempre nas cidades, onde quase sempre existe uma biblioteca, não terá talvez esta experiência, de ver chegar uma carrinha com livros à sua porta. Para quem a espera, esses livros agem como uma prenda.
Numa aldeia de Trás-os-Montes, uma pastora escreve versos. Vem à carrinha buscar livros. Espere um bocadinho que vou buscar, diz-me. Aparece, daí a pouco com um livrinho na mão, Poemas de Amor e Sofrimento. Empresta-mo. Que depois lho mande no próximo mês. Agradeço e até à próxima.

Quando penso no que será das bibliotecas itinerantes quando se avariarem os seus carros, sobe-me uma onda de tristeza, pela suspeita de que raramente se comprarão outros para substituir os antigos.
O que pode um livro fazer por uma vida?
Pode um livro salvar-nos, reabrindo a ferida original num momento precioso, sarando outras, arrancando-nos ao quotidiano e envolvendo-nos numa aura de esperança, ou dilacerando-nos, revolvendo a semente que estava em nós à espera de emergir.
Isso que podem os livros fazer pelas vidas das pessoas, não fica escrito nas estatísticas que servem de inspiração a orçamentos de estado. Deveria ser possível dizer assim: este livro salvou-me! E isso contar para uma estatística qualquer importante! Talvez assim, investindo em livros, se pudesse investir um pouco menos em anti-depressivos. Às vezes nem damos conta, como quando alguém nos toca ao de leve no ombro. Voltamo-nos para ver e já somos outros.
Deixo-vos um excerto de um livro pelo qual fui salva há muitos anos, numa outra vida. Todo o texto é belo e intenso e apetece-me, muitas vezes, continuar a copiá-lo durante vários parágrafos. O livro chama-se Os Cadernos de Malte Laurids Brigge do poeta Rainer Maria Rilke.

“Esta doença não tem particularidades determinadas, toma as particularidades daqueles que ataca. Com uma segurança de sonâmbulo, arranca de cada um o seu mais profundo perigo que parecia já passado, e põe-no de novo diante dele, muito perto, na hora mais próxima. Homens de outrora, nos tempos da escola, tentaram o vício sem amparo cujos confidentes enganados são as pobres mãos duras dos rapazes, surpreendem-se de novo na sua prática; ou então é uma doença, que venceram como crianças, que neles recomeça; ou um hábito perdido que reaparece, uma certa maneira hesitante de voltar a cabeça, que há anos lhes era próprio. E com o que vem ergue-se todo um tecido confuso de lembranças desgarradas que se prende como algas húmidas a uma coisa submersa. Vidas, de que nunca se teria sabido, erguem-se e misturam-se àquilo que realmente existiu, e expulsam um passado que se julgava conhecer: pois naquilo que vem subindo há uma força nova e repousada, mas aquilo que sempre existiu está cansado do muito lembrar.”

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A propósito de um livro de André Kertész














Buenos Aires (man reading while walking), July 10, 1962
André Kertész, On Reading



Semear na Neve é um conjunto de estudos sobre Walter Benjamin, escritos por Filomena Molder, compilados com dois que o não são propriamente, como é o caso de Sobre on Reading de André Kertész, que é um estudo sobre a ideia de leitura.
Filomena Molder é uma autora que não me canso de ler.

“Havendo uma suspensão do fluxo intencional da experiência, a irrupção dos afectos e das imagens sonhadas encontra o espírito no estado mais propício de abandono, alheamento, que é uma forma elevada de concentração: o leitor não é tanto aquele que vê, quanto aquele que a vidência guia, esquecido da sua própria visibilidade. Ao riso e ao choro, e ao seu cortejo, nascidos da leitura, não há idade que seja alheia: haverá alguma idade que lhe seja mais favorável? O acto de ler, a aprendizagem da leitura é um acto de infância por absoluto, por isso mesmo parecem os velhos que lêem tão perto de regressar a um ponto onde toda a infância se acolhe, e os adultos tomados pela leitura deixam transparecer, intocáveis, todos os indícios desse lugar recôndito, oculto em todas as ocasiões. Na verdade, a dificuldade de um adulto ou de um velho aprender a ler procede da vertigem de não poderem regressar a um mundo de lembranças, para o qual a infância está desde sempre preparada: um sonho sem comparações, tal como a língua materna. Aquele que já perdeu a infância não pode resgatar esse sonho do aprender incomparável, do aprender sem analogia, esse endureceu, está armado, defendido pela espessura de toda a espécie de repetições, suspeitas, deduções, lamentos e falsos improvisos, que constituem o lote de qualquer vida composta de muitos anos, para quem toda a vivência é um derivado. Na infância a leitura encarna essa descoberta do que não se passou em lugar nenhum, nem em tempo nenhum, isso que para Novalis era o único verdadeiro. Não é outro o sentido da experiência visível ou antecipável no rosto, nos ombros, nas mãos, nos atacadores dos sapatos, nos braços, nos cabelos, de todos aqueles que aparecem nestas fotografias, andados à procura de uma coisa que deixaram guardada num quarto que já foi deles.”



Há uns dias chegou um leitor ao balcão da biblioteca, trazia consigo os livros que tinha levado. Desculpou-se dizendo que lhe faltava um, que não o trazia, tinha estado a ler Aquele Livro sem parar, nem tinha conseguido comer. Falava com uma voz emocionada e desenhou-se-me imediatamente um sorriso no coração.
Gostaria que todos os dias fossem assim.
Quis saber o que leu, esperei impacientemente que o devolvesse.


As vidas das pessoas: não sabemos o que nelas acontece. E no entanto sentimo-nos uns aos outros se o quisermos. Mostramo-nos um pouco mais quando ali colocamos um livro, Aquele Livro. Tocamo-nos uns aos outros. As bibliotecas vivas que somos abrem-se em leque e dão-se a conhecer para que outras integrem em si os Nossos Livros.


A estante verde que guardamos: como dizer segredos silenciosamente.