segunda-feira, 18 de maio de 2009
A nossa voz em bits na voz de Mário de Sá-Carneiro
-A verdade é esta, não nos criemos mais ilusões
-Fugiu, mas foi apanhada pela antena da TSF
Que a transmitiu pelo infinito em ondas hertzianas...
(Em todo o caso que belo fim para a minha Alma)!...
Agosto de 1915
Um outro livro...

Metamorfose de Kafka
Para mim este é o melhor conto de Kafka. A irrealidade do cenário levada ao domínio da fantasia, cheio de perspectivas alegóricas tornam-no delicioso. O mundo de Kafka é singular assim como a sua obra. A fantasia entomológica em que se transforma Gregor, personagem principal desta história, obriga-o a ficar prisioneiro por necessidade (fugir ao mundo, ao seu quotidiano insuportável), e espectador atónito da rotina familiar. Uma família grotesca que afasta Gregor, isolando-o na sua condição de insecto.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Inquietante obsessão
Todos os livros são histórias contadas por mentes que decidem partilhar com os outros uma parte do seu mundo, o qual produz conhecimento que molda a nossa vida e a nossa compreensão dos outros, porque ler é também viver uma aventura num mundo diferente mas no qual são visíveis similaridades com a nossa cosmovisão.
É-me difícil escolher um livro para colocar na estante verde, o gosto pelas histórias é um reflexo da evolução pessoal, num período específico, mas decidi escolher um em particular. Há alguns anos, vivia eu em Guimarães, quando o Óscar, um café situado perto do centro histórico, resolveu disponibilizar livros e revistas que poderiam ser consultados pelos clientes enquanto bebiam uma bica. Agradado com tal ideia, rapidamente me dirigi à estante à procura de um livro. De início parecia demasiado grande para ser lido meia hora por dia, enquanto o café arrefecia, mas, Dostoievsky era um nome conhecido, apesar da ignorância que na altura manifestava em relação à obra do autor. O Idiota parecia um nome um pouco rude, no entanto, algo apelativo naquela altura da minha vida. Depois de ultrapassada a dificuldade com os nomes das personagens deixei-me imergir no enredo, de tal forma que por vezes me esquecia das horas. Muitas vezes esperei, até ficar só eu e o livro, mas era difícil conjugar a disponibilidade para estar no café, até que uma vez, ao chegar à estante, reparei que o livro não estava no lugar habitual… depois de uma vista geral pelas mesas descobri-o… estava nas mãos de uma senhora com o cabelo grisalho e de olhar simpático! Nem queria acreditar, agora ainda tinha que partilhá-lo… terminei o café e senti-me despido, faltava-me algo, o que é que eu podia fazer… caminhei durante meia hora, parei na livraria e lá estava ele, não havia desculpa, agora podia tê-lo só para mim e o tempo que eu quisesse.
Os retratos que o autor faz dos personagens chegam a ser tão intensos que quase conseguimos imaginar a sua forma! Contemplei os delírios de Mychkine, a sua procura pelo lado negro da vida até à queda na escuridão. Que triste… que lindo… que bom! E por fim, repousei.
Livros que nos salvam

Numa aldeia de Trás-os-Montes, uma pastora escreve versos. Vem à carrinha buscar livros. Espere um bocadinho que vou buscar, diz-me. Aparece, daí a pouco com um livrinho na mão, Poemas de Amor e Sofrimento. Empresta-mo. Que depois lho mande no próximo mês. Agradeço e até à próxima.
Quando penso no que será das bibliotecas itinerantes quando se avariarem os seus carros, sobe-me uma onda de tristeza, pela suspeita de que raramente se comprarão outros para substituir os antigos.
O que pode um livro fazer por uma vida?
Pode um livro salvar-nos, reabrindo a ferida original num momento precioso, sarando outras, arrancando-nos ao quotidiano e envolvendo-nos numa aura de esperança, ou dilacerando-nos, revolvendo a semente que estava em nós à espera de emergir.
Isso que podem os livros fazer pelas vidas das pessoas, não fica escrito nas estatísticas que servem de inspiração a orçamentos de estado. Deveria ser possível dizer assim: este livro salvou-me! E isso contar para uma estatística qualquer importante! Talvez assim, investindo em livros, se pudesse investir um pouco menos em anti-depressivos. Às vezes nem damos conta, como quando alguém nos toca ao de leve no ombro. Voltamo-nos para ver e já somos outros.
Deixo-vos um excerto de um livro pelo qual fui salva há muitos anos, numa outra vida. Todo o texto é belo e intenso e apetece-me, muitas vezes, continuar a copiá-lo durante vários parágrafos. O livro chama-se Os Cadernos de Malte Laurids Brigge do poeta Rainer Maria Rilke.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
AGUALUSA, José Eduardo

A escrita de Agualusa é clara e franca, é por isso que gosto dos seus livros. Nação Crioula, remeteu-me uma vez mais, para os meus interesses, porque quando ando embrenhada nalgum assunto, este aparece-me espelhado nas mais variadas situações ao longo do período exploratório. Nessa altura, andava a ler a correspondência do Capitão João Sarmento Pimentel e achei piada à coincidência.
A escravatura que o escritor aborda, não me provocou aquela indignação que geralmente me vem das entranhas, porque foi passada para a narrativa com a naturalidade de quem tem conhecimento da realidade, e que já a quietou na história do seu interior, como algo que acontece nos manuais escolares, tornando tudo muito mais longínquo.
Depois, vem a descrição daquele povo que é também o escritor, a beleza do ser humano transmitida através da sua cultura, um grito de desespero, uma paixão forte e um acto de um homem corajoso.
Esta semana, o nome de Agualusa, tem vindo a aparecer em vários sítios e foi por isso que resolvi falar deste livro, porque me veio novamente à memória, o escritor e o livro. Primeiro a entrevista na Ler, o pedido de licença de Francisco José Viegas para o sucedido, como quem diz: - Eu avisei por isso escusam de criticar!- justificando-se por entrevistar um colaborador da revista. Depois na blogosfera, uma admiradora dos atributos físicos do escritor, que cultiva aquele ar de Dom Quixote (mas um bocadinho a fingir), e até aposto, que se fosse mulher ia ser difícil gerir estes dois atributos.
Boas Leituras
segunda-feira, 11 de maio de 2009
A propósito de um livro de André Kertész

André Kertész, On Reading
Quis saber o que leu, esperei impacientemente que o devolvesse.
As vidas das pessoas: não sabemos o que nelas acontece. E no entanto sentimo-nos uns aos outros se o quisermos. Mostramo-nos um pouco mais quando ali colocamos um livro, Aquele Livro. Tocamo-nos uns aos outros. As bibliotecas vivas que somos abrem-se em leque e dão-se a conhecer para que outras integrem em si os Nossos Livros.
A estante verde que guardamos: como dizer segredos silenciosamente.
