Tá Tá Bebé
O senhor rei da casa,
O senhor bebé,
Dá ordens a toda a gente,
E só sabe dizer tá tá.
Não é que seja autoritário,
Nem tão pouco genial,
Mas um anjo a existir,
Decerto que é igual.
Nunca vi este caso divulgado
Nos estudos de liderança,
Mas já se sabe que os doutores
Não levam a sério a graça.
Por isso tá tá bebé
Tudo seria mais bonito,
Se todas as razões que nos movem
Fossem as do teu sorriso.
Elisa Sampaio
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Ralho das Mulheres a um Homem bonito
Como podes tu,
Sabendo-te tão bonito,
Deixares o nosso coração,
Neste estado tão aflito?
O que vamos nós fazer?
Querer a um homem casado?
Deixa-te de imaginações,
Que tens o caldo entornado….
Se pensas tu que a amas,
Pensa também no nosso amor.
Vês que a proporção está feita…
Nada de chamar o prior!
Estás muito bem como estás,
E ela melhor ainda,
Que decerto não conseguirá sozinha,
Tratar de coisa tão linda….
Elisa Sampaio
Como podes tu,
Sabendo-te tão bonito,
Deixares o nosso coração,
Neste estado tão aflito?
O que vamos nós fazer?
Querer a um homem casado?
Deixa-te de imaginações,
Que tens o caldo entornado….
Se pensas tu que a amas,
Pensa também no nosso amor.
Vês que a proporção está feita…
Nada de chamar o prior!
Estás muito bem como estás,
E ela melhor ainda,
Que decerto não conseguirá sozinha,
Tratar de coisa tão linda….
Elisa Sampaio
Letargia
Sou flor no parapeito em dia ensolarado,
Sou gato no regaço em dia de borrasca,
Estou entre o sonho e as horas que passam,
Amontoando géneses e termos.
Sou o futuro e o passado
Com pálpebras semiabertas,
Com pálpebras semicerradas,
Combinando a ilusão e os factos.
Momento em que me recrio feto
Em calor ventral germinativo
Tempo de relógio quebrado
Onde desemaranho a consciência.
Elisa Sampaio
Sou flor no parapeito em dia ensolarado,
Sou gato no regaço em dia de borrasca,
Estou entre o sonho e as horas que passam,
Amontoando géneses e termos.
Sou o futuro e o passado
Com pálpebras semiabertas,
Com pálpebras semicerradas,
Combinando a ilusão e os factos.
Momento em que me recrio feto
Em calor ventral germinativo
Tempo de relógio quebrado
Onde desemaranho a consciência.
Elisa Sampaio
Confissões de um passarinho
Eu não sei muito bem o que digo,
Mas o meu canto é muito bonito…
Tudo o que sei és tu que dizes,
Que a mim não me interessam tolices.
Falas em liberdade,
Mas olha que eu,
Não penso lá muito nisso quando voo pelo céu….
Estamos entre a natureza e o olhar
Em que ficcionas o que para mim é ser
Se sou pássaro és tu que o compreendes
Nas asas do que é o teu ver.
Elisa Sampaio
Eu não sei muito bem o que digo,
Mas o meu canto é muito bonito…
Tudo o que sei és tu que dizes,
Que a mim não me interessam tolices.
Falas em liberdade,
Mas olha que eu,
Não penso lá muito nisso quando voo pelo céu….
Estamos entre a natureza e o olhar
Em que ficcionas o que para mim é ser
Se sou pássaro és tu que o compreendes
Nas asas do que é o teu ver.
Elisa Sampaio
quinta-feira, 21 de julho de 2011
CARTA A MEUS FILHOS Sobre os fuzilamentos de Goya
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
domingo, 12 de junho de 2011
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