terça-feira, 27 de novembro de 2012

Os Vendilhões do Templo




Deus disse: faz todo o bem

Neste mundo, e, se puderes,

Acode a toda a desgraça

E não faças a ninguém

Aquilo que tu não queres

Que, por mal, alguém te faça.



Fazer bem não é só dar

Pão aos que dele carecem

E à caridade o imploram,

É também aliviar

As mágoas dos que padecem,

Dos que sofrem, dos que choram.



E o mundo só pode ser

Menos mau, menos atroz,

Se conseguirmos fazer

Mais p'los outros que por nós.



Quem desmente, por exemplo,

Tudo o que Cristo ensinou.

São os vendilhões do templo

Que do templo ele expulsou.



E o povo nada conhece...

Obedece ao seu vigário,

Porque julga que obedece

A Cristo — o bom doutrinário.



(António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo...")

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Ofício de Amar


já não necessito de ti


tenho a companhia nocturna dos animais e a peste

tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras

[galáxias, e

[o remorso



um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio

é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração

não, não preciso mais de mim

possuo a doença dos espaços incomensuráveis

e os secretos poços dos nómadas



ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto

deixei de estar disponível, perdoa-me

se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo



Al Berto, “O Medo”

É Preciso Também não Ter Filosofia Nenhuma


Não basta abrir a janela


Para ver os campos e o rio.

Não é bastante não ser cego

Para ver as árvores e as flores.

É preciso também não ter filosofia nenhuma.

Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.

Há só cada um de nós, como uma cave.

Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;

E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,

Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.



Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

Heterónimo de Fernando Pessoa

Explicação da Eternidade



devagar, o tempo transforma tudo em tempo.


o ódio transforma-se em tempo, o amor

transforma-se em tempo, a dor transforma-se

em tempo.



os assuntos que julgámos mais profundos,

mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,

transformam-se devagar em tempo.



por si só, o tempo não é nada.

a idade de nada é nada.

a eternidade não existe.

no entanto, a eternidade existe.



os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.

os instantes do teu sorriso eram eternos.

os instantes do teu corpo de luz eram eternos.



foste eterna até ao fim.



José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"

quinta-feira, 22 de novembro de 2012






Tudo o que quero guardar da vida,
É o amor que tenho à vida.
É a dor de deixar os que amo,
A dor de tudo o que deixei por fazer.
Quando deixar cair uma lágrima de tristeza,
Pelo fim anunciado,
Independentemente de tudo o que seja a minha vida,
Eu sei, pela dor que sinto,
Que valeu a pena viver.
A estrela que nos guia

Se no céu escolhemos uma estrela,
Ou o céu nos escolheu uma estrela,
Não a sigamos esquecendo o firmamento,
Não a sigamos procurando a salvação.
É a nossa crença que nos conduz ao Messias,
É a nossa visão do firmamento,
Que nos conduz à estrela.

sábado, 17 de novembro de 2012

 

Os Justos


 Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.

O que agradece que na terra haja música.

O que descobre com prazer uma etimologia.

Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.

O ceramista que premedita uma cor e uma forma.

O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.

Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.

O que acarinha um animal adormecido.

O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.

O que agradece que na terra haja Stevenson.

O que prefere que os outros tenham razão.

Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.



Jorge Luis Borges, in "A Cifra"

Tradução de Fernando Pinto do Amaral