quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Entrevistas da Paris Review


Este livro é uma compilação de entrevistas literárias a vários escritores entrevistados para a Paris Review, a selecção, tradução e notas são da responsabilidade de Carlos Vaz Marques.
Um dos entrevistados é o grande escritor Jorge Luís Borges.

"Disse uma vez que um escritor nunca devia ser julgado pelas suas ideias.
- Sim, não me parece que as ideias sejam importantes.

Muito bem, então de que modo devia ele ser julgado?
- Devia ser julgado pela satisfação que proporciona e pelas emoções que se obtêm. Quanto às ideias, bem vistas as coisas não é muito importante se um escritor tem uma determinada opinião política ou se tem outra, porque a obra há-de surgir independentemente delas, como no caso do Kim, de Kipling. Suponha que considera a ideia do império inglês - bem, em Kim parece-me que as personagens de que realmente gostamos não são inglesas, mas muitas delas índios ou muçulmanos. Acho que são boa gente. E isso acontece porque ele as pensou - não, não! Não porque ela as pensou mais simpáticas - porque ele as sentiu mais simpáticas."

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O velho que lia romances de amor


"-É verdade que sabes ler, compadre?

- Alguma coisa.

- E que estás a ler?

- Um romance. Mas cala-te. Se falas a chama mexe-se e mexem-se-me as letras. O outro afastou-se para não estorvar, mas era tal a atenção que o Velho prestava ao livro que não suportou ficar à margem.
- De que é que trata?
- Do amor.
Perante a resposta do velho, o outro aproximou-se com renovado interesse.
- Não me lixes. Com fêmeas ricas, das que fervem?O Velho fechou o livro num repente fazendo tremer a chama do candeeiro.
- Não.Trata-se do outro amor. Do que dói."


Luis Sepúlveda

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Leite Derramado


"É O TAL NEGÓCIO, me arrancam da cama, me passam para a maca, ninguém quer saber dos meus incômodos. Nem bem acordei, não me escovaram os dentes, estou com a cara amassada e a barba por fazer, e com este péssimo aspecto me fazem desfilar sob a luz fria do corredor que é um verdadeiro purgatório, com um monte de gente estropiada pelo chão, fora os vagabundos que vêm ali a fim de ver desgraça. Por isso puxo o lençol e cubro meu outrora belo rosto, que logo tornam a expor para não parecer que estou morto, porque causa má impressão, ou é vexatório para maqueiro transportar defunto. Depois tem o elevador, onde todos olham sem cerimônia para a minha cara, em vez de olhar para o chão, o tecto, o mostrador de andares, porque também não custa nada olhar para o traste".
Chico Buarque

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Uma longa viagem com António Lobo Antunes


É disto que se trata, uma longa viagem espiritual. Foi o que senti, quando li este livro, em forma de entrevista. António Lobo Antunes mostra-se, quase nu, sem pudor em se afirmar como pessoa.
António Lobo Antunes é de uma dignidade transcendente, não teve receio em se mostrar tal como é, e ao fazê-lo provocou-me um sentimento inexplicável de vergonha, porque afinal de contas aquele Homem que há muito coloquei num pedestal, está a despir-se para os leitores, e eu, ao lê-lo achei que não merecia.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Amantes e Inimigos


Rosa Montero escritora espanhola, escreve de forma bastante própria sendo fácil aos seus leitores detectar o seu estilo literário.

Amantes e Inimigos é um conjunto de contos interessantíssimos, onde é visível o seu refinado sentido de humor.


Sobre a fealdade:


"Escolhemos o próximo como quem escolhe um cabide, e nele penduramos o invento dos nossos sonhos. E dá-se o maldito caso de que as pessoas tendem sempre a procurar cabides bonitos. Dá-se o reles caso de que se intui sempre um interior emocionante nas meninas bonitas, por muito néscias que sejam. Ao passo que ninguém se dá ao trabalho de supor uma alma bela numa mulher franzina, cabeçuda com olhos separados. Por vezes, esta certeza que acompanha a fealdade arde como uma ferida aberta: não é que não me vejam, é que não me imaginavam"

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A Casa Dos Espíritos, Isabel Allende




A primeira edição de "A casa dos Espiritos" saiu à venda em 1982, e catapultou Isabel Allende de uma maneira espetacular à fama. Esta foi a sua primeira obra.

O relato transporta-nos à história do Chile e conta-nos as aventuras e desventuras, amores e ódios, crenças e diferenças políticas de três gerações diferentes da família Trueba. Para além de abordar diferentes visões políticas, aborda também temas bastante controversos da altura e que ainda hoje despertam interesse.

As personagens são profundas e criativas, descritas pela escritora com um toque anedótico e ao mesmo tempo focando rasgos menos bons destas, mas que sem eles seria impossível transmitir o sentimento da época.

O relato em si é envolvente e cativante desde a primeira página. Isabel escreve de uma maneira muito fluida e com a pontada de sarcasmo característico dos Sul-Americanos.
Diferentes aventuras e muitas emoções, guerras pessoais e a guerra civil preencherão a sua leitura, e não poderá largar o livro até à última página. Eu pessoalmente, adorei. Desfrute!!

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Livros




Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.


Os livros são objectos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:


Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.


Caetano Veloso