Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

ESQUECIMENTO



Esse de quem eu era e que era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.

Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tacteio sombras... que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisântemos...

E desse que era meu já me não lembro...
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos!...



Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa a 8 de Dezembro de 1894. Concluído um curso de Letras em 1917, inscreveu-se no curso de Direito. Em 1919 publica Livro de Mágoas. O Livro de Soror Saudade é publicado em 1923, depois de um segundo casamento. Sofre o segundo aborto involuntário, divorcia-se, casa-se pela terceira vez. A morte do irmão Apeles agrava-lhe os sintomas anteriormente diagnosticados de desequilíbrio mental. Escreve As Máscaras do Destino. Suicida-se a 8 de Dezembro de 1930, praticamente desconhecida do grande público.

Domingo, 29 de Janeiro de 2012


Gostaria de descrever

gostaria de descrever a emoção mais simples
alegria ou tristeza
mas não como os outros fazem
procurando chegar a dardos de chuva ou sol

gostaria de descrever a luz
que está a nascer em mim
mas sei que não se parece
com nenhuma estrela
porque não é tão brilhante
nem tão pura
e é inconstante

gostaria de descrever a coragem
sem arrastar atrás de mim um leão poeirento
e também a ansiedade
sem agitar um copo cheio de água

dizendo de outra maneira
daria todas as metáforas
em troca de uma palavra
arrancada do meu peito como uma costela
por uma palavra
contida dentro dos limites
da minha pele

mas aparentemente isso não é possível

e só para dizer — eu amo
corro em círculos como um louco
apanhando mãos cheias de pássaros
e a minha ternura
que afinal de contas não é feita de água
pergunta à água por um rosto

e a ira
diferente do fogo
pede-lhe emprestada
uma língua loquaz

tudo tão emaranhado
tudo tão emaranhado
em mim
que o senhor de cabelo branco
desfez o emaranhado de uma vez por todas
e disse este é o sujeito
e este é o complemento

adormecemos
com uma mão debaixo da cabeça
e com a outra
num aterro de planetas

os nossos pés abandonam-nos
e tocam a terra
com as suas raízes minúsculas
que de manhã
arrancamos dolorosamente

Zbigniew Herbert

Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012


A música I: breve súmula dos mais importantes ditados do Ministro Calvo


Concordemos todos: o perigo que é ouvir pássaros cantarem melodias
alegres. O perigo que é! Felizmente, o Muro serve de barreira, a
Floresta fica longe, e os ramos das árvores. Mas não sejamos
desprevenidos. A música não é apenas, como muitos julgam, mera
organização matemática de sons. Ou: que bonito!, ou: que horror! A
música também é medicamento: pode deter a eficácia inata de um
poderoso ansiolítico, ou guardar fortes propriedades vitamínicas. Daí
alterar estados de ânimo, compassos cardíacos. Pois, tal como uma arma
de grande calibre quando empunhada, um violoncelo, um saxofone,
derrubam, imobilizam, silenciam, amolecem, colocam lágrimas onde antes
não as tínhamos. E, de igual forma, vocês sabem isto, um piano faz
deslizar o corpo, ou levanta-nos de um pulo como um gafanhoto, ou
põe-nos a correr com o vento da alegria a arreganhar a boca.
Posto isto, colocam-se questões indispensáveis:
Que música deve o Governo ouvir para se fazer mais forte, e irresistível?
E que música permitiremos nós dar a todas as cabeças silvestres e
corações toscos que nesta cidade abundam, para que não lhes cresça na
boca a espuma da baba raivosa?

Sandro William Junqueira, in "um piano para cavalos altos" caminho, 2012

No Fundo Somos Bons


24 Janeiro2012

O comum das gentes (de Portugal) que eu não chamo povo porque o nome foi estragado, o seu fundo comum é bom. Mas é exactamente porque é bom, que abusam dele. Os próprios vícios vêm da sua ingenuidade, que é onde a bondade também mergulha. Só que precisa sempre de lhe dizerem onde aplicá-la. Nós somos por instinto, com intermitências de consciência, com uma generosidade e delicadeza incontroláveis até ao ridículo, astutos, comunicáveis até ao dislate, corajosos até à temeridade, orgulhosos até à petulância, humildes até à subserviência e ao complexo de inferioridade. As nossas virtudes têm assim o seu lado negativo, ou seja, o seu vício. É o que normalmente se explora para o pitoresco, o ruralismo edificante, o sorriso superior. Toda a nossa literatura popular é disso que vive.

Mas, no fim de contas, que é que significa cultivarmos a nossa singularidade no limiar de uma «civilização planetária»? Que significa o regionalismo em face da rádio e da TV? O rasoiro que nivela a província é o que igualiza as nações. A anulação do indivíduo de facto é o nosso imediato horizonte. Estruturalismo, linguística, freudismo, comunismo, tecnocracia são faces da mesma realidade. Como no Egipto, na Grécia, na Idade Média, o indivíduo submerge-se no colectivo. A diferença é que esse colectivo é hoje o puro vazio.
Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 2'

Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

As Cidades Invisíveis






As cidades e os sinais .




“O homem que viaja e não conhece ainda a cidade que o espera ao longo da estrada, se pergunta como será o palácio real, a caserna, o moinho, o teatro, o mercado. Em toda cidade do império todo edifício é diferente e disposto numa ordem diversa: mas apenas o forasteiro chega à cidade desconhecida e lança o olhar em meio aquela pinha de pagode e sótãos e telhados de feno, seguindo o traçado de canais hortos monturos, de repente distingue quais são os palácios dos príncipes, quais os templos dos grandes sacerdotes, a pousada, a prisão, o bairro boêmio. Assim – disse alguém – se confirma a hipótese de que todo homem carrega na mente uma cidade feita somente de diferenças, uma cidade sem figura e sem forma, e as cidades particulares a preenchem.




Não é assim em Zoe. Em todo lugar desta cidade se poderia vez a outra dormir, fabricar ferramentas, cozinhar, acumular moedas de ouro, despir-se, reinar, vender, interrogar oráculos. Qualquer teto em pirâmide poderia cobrir tanto o lazareto dos leprosos quanto as termas das odaliscas. O viajante gira e gira e não há o que duvidar: não conseguindo distinguir os pontos da cidade, também os pontos que ele tem distinto na mente se misturam. Lá se infere isto: se a existência em todos os seus momentos é toda si mesma, a cidade de Zoe é o lugar da existência indivisível. Mas por que agora a cidade? Qual linha separa o dentro do fora, o estrondo das rodas do uivo dos lobos?” (trad. LdeM)



Italo Calvino



para ouvir sobre outras cidades invisíveis ...




http://www.youtube.com/watch?v=Bjwlg91dDwY&feature=related

Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

o sonho



se o sonho fosse (como dizem) uma
trégua, um puro repouso da mente,
porque é que, se te acordam bruscamente,
sentes que te roubaram uma fortuna?
porque é que é tão triste madrugar? a hora
despoja-nos dum dom inconcebível,
tão íntimo que só é traduzível
num torpor que a vigília doura
... de sonhos, que bem podem ser reflexos
truncados dos tesouros da sombra,
e que o dia deforma nos seus espelhos.
quem serás esta noite no escuro
sonho, do outro lado do seu muro?

- jorge luis borges -
(el suenõ, trad menino mau)

uma cidade solitária. todas as terras do vale eram assim:
desoladas, uma decadência mística, enclaves de existência
humana, com pessoas agrupadas por detrás de pequenas
vedações e frágeis paredes estucadas, barricadas contra
a escuridão... à espera.

- john fante -
(a confraria do vinho)